Em setembro de 2005, World of Warcraft protagonizou um dos episódios mais curiosos e inesperados da história dos videogames: uma pandemia virtual que se espalhou de forma incontrolável pelo mundo de Azeroth.
O evento, conhecido como Corrupted Blood Incident (Incidente do Sangue Corrompido, em tradução livre), extrapolou os limites do entretenimento e acabou sendo estudado por epidemiologistas como um raro exemplo de comportamento humano diante de uma crise sanitária simulada.
O que aconteceu?
O problema teve início com a introdução da raid Zul’Gurub, onde o chefe final, Hakkar the Soulflayer, aplicava nos jogadores um debuff chamado Corrupted Blood. A habilidade drenava vida continuamente e se espalhava para qualquer personagem próximo. Em teoria, o efeito deveria existir apenas durante o combate, desaparecendo após alguns segundos ou com a morte do personagem.

O erro de design surgiu quando se descobriu que os pets dos caçadores (hunters) também podiam ser infectados. Ao serem desativados e reativados fora da raid, esses animais continuavam carregando a doença, espalhando-a para jogadores e NPCs em qualquer região do mapa. Assim, um efeito restrito a jogadores de alto nível escapou para áreas iniciais do jogo, afetando personagens incapazes de sobreviver ao dano.
A propagação do caos
Em poucas horas, grandes cidades foram tomadas por personagens mortos, telas cobertas de efeitos visuais e ciclos infinitos de morte e ressurreição. Jogadores iniciantes eram os mais afetados, morrendo imediatamente após renascer. O problema se agravou quando se descobriu que NPCs essenciais, que não podiam morrer por design, tornaram-se portadores assintomáticos, espalhando silenciosamente a doença.
O comportamento dos jogadores passou a refletir padrões surpreendentemente realistas. Enquanto alguns tentaram se isolar em áreas afastadas, outros ignoraram os riscos, circularam livremente pelas cidades ou até espalharam a doença de forma intencional, apenas pelo caos ou diversão. Ao mesmo tempo, surgiram jogadores que assumiram papéis quase altruístas, curando infectados e alertando sobre áreas perigosas.
Medidas adotadas pela Blizzard
Diante da insatisfação crescente, especialmente considerando que World of Warcraft é um jogo por assinatura, a Blizzard tentou diversas soluções emergenciais. Entre elas, destacaram-se tentativas de quarentena virtual, pedidos para que jogadores evitassem áreas urbanas e hotfixes rápidos para conter a disseminação.
Essas medidas, porém, falharam em grande parte devido ao comportamento imprevisível da comunidade. Muitos jogadores simplesmente ignoraram as recomendações, enquanto outros exploraram ativamente o bug. A pandemia só foi definitivamente contida após um reset completo dos servidores e, posteriormente, um patch que impedia pets de contraírem o Corrupted Blood.

Pontos positivos do incidente
Apesar do caos, o episódio revelou aspectos extremamente valiosos:
- Demonstrou como ambientes virtuais podem simular comportamentos humanos reais, inclusive irresponsabilidade, altruísmo e pânico coletivo.
- Gerou dados inéditos para pesquisadores, culminando em estudos publicados em revistas científicas, como o trabalho da bióloga Nina Fefferman, que analisou o caso sob a ótica da epidemiologia.
- Tornou-se um marco histórico na cultura dos videogames, frequentemente citado em debates sobre design emergente e sistemas complexos.
Pontos negativos do incidente
Por outro lado, o incidente mostrou problemas importantes:
- A fragilidade de sistemas complexos diante de interações não previstas pelos desenvolvedores.
- O impacto negativo na experiência de novos jogadores, muitos dos quais simplesmente não conseguiam jogar.
- A dificuldade de impor regras de contenção quando os participantes não sofrem consequências reais, algo que distorce parcialmente a comparação com pandemias do mundo real.
Um legado que vai além do jogo
A pandemia virtual de World of Warcraft durou cerca de três semanas, entre 13 de setembro e 8 de outubro de 2005. Desde então, a Blizzard só voltou a usar eventos semelhantes de forma intencional e controlada, como nas expansões Wrath of the Lich King e Shadowlands. Ainda assim, nenhuma delas teve o mesmo impacto espontâneo do Corrupted Blood.
Mais do que uma curiosidade gamer, o episódio se consolidou como um estudo de caso sobre comportamento humano, frequentemente relembrado durante a pandemia de COVID-19. Ele mostrou que, mesmo em mundos fictícios, as reações sociais diante do risco, da informação e da liberdade individual seguem padrões assustadoramente familiares.
FONTE: Super Interessante, Tecmundo.










